Morre Mircea Lucescu: lenda do futebol europeu teve atrito com jogador do Atlético
Mircea já era treinador do Shakhtar há 10 temporadas, quando Bernard chegou à Ucrânia, em agosto de 2013. Foram pagos25 milhões de euros (aprox. R$ 77 milhões na cotação da época) ao alvinegro pela contratação do jogador, que vivia grande fase após a conquista da Copa Libertadores e estava no radar da Seleção Brasileira, pela qual disputou a Copa do Mundo de 2014.
Sob grande expectativa, Bernard não foi bem na primeira temporada: somente três gols em 29 partidas. O desempenho fez crescer a desconfiança pelo jogador, que não tinha prestígio com o treinador.
“Ainda não tinha encontrado nenhum outro jogador que não fraternizasse com ninguém da equipe, nem brasileiros, nem ucranianos. Com ninguém! Nós nos separamos de Bernard no dia 15 de maio, após a final da Copa (da Ucrânia). Permitimos que ele fosse para casa mais cedo do que todos os outros. Pois agora já vai fazer quase três meses que a gente não o vê. A sensação que dá é que ele é um jogador de Twitter e das redes sociais. Aí ele contata com os fãs. Mas, ao mesmo tempo, não se comunica com a sua equipe, que é quem lhe paga o salário, e que não é nada pequeno”, falou Mircea Lucescu sobre Bernard em entrevista ao site oficial do Shakhtar Donestsk, em agosto de 2014.
À época, o país do Leste Europeu passava por conflitos internos, e alguns jogadores ameaçaram não retornar ao Shakhtar para a pré-temporada diante do clima de tensão. Bernard demorou mais que alguns companheiros de equipe para se reapresentar, o que irritou Lucescu.
“O contrato é sempre obedecido. Entendo que uma pessoa pode atrasar uma vez, acontece, mas a segunda, terceira e quarta (não). Bernard viajou por todo o mundo com a Seleção Brasileira, mas nós infelizmente não o vimos. De um modo geral, nem sequer podemos usá-lo em todo o potencial, porque não sabemos ao certo do que ele é capaz.”
Mircea Lucescu, lenda do futebol romeno
O meia-atacante não ficou calado e rebateu a declaração do treinador em publicação no X (antigo Twitter): “Três meses. Sendo que a Copa acabou faz um mês! Aula de matemática? Será preciso.”
As críticas seguiram em janeiro de 2015: “Douglas (Costa) é jovem, (Alex) Teixeira é jovem. São todos da mesma idade. Fred joga sempre. É perfeito. Os dois melhores da equipe são Fred e Teixeira. Não saem nunca. Querem jogar sempre. Estávamos perdendo para o Atlético, e eles pediram para permanecer em campo. São jogadores de seleção. Bernard tem que demonstrar em campo que é homem. Bernard só chora. Só veio tomar dinheiro. Sofro, mas creio que todos querem sofrer para ganhar 300 mil euros por mês”.
A partir da metade daquela ano, a situação de Bernard no Shakhtar passou a melhorar, tanto é que, sob a indicação de Mircea Lucescu, o clube recusou uma proposta do Porto pelo meia-atacante. O treinador queria vê-lo como “líder” do time.
“Quanto ao Bernard, em breve ele completa dois anos de equipe. Quero vê-lo como um líder no plano técnico. Mas não é fácil para ele porque tem que competir com o Taison, que também é um jogador muito técnico atuando na mesma posição (…) Ao longo destes dois anos eu fui acompanhando pacientemente a melhoria e adaptação dele.”
Mircea Lucescu, em entrevista ao ge
“Quando ele chegou, provavelmente pensava que no ano seguinte estaria deixando o clube. Por essa razão, teve alguns problemas de disciplina e a sua condição física não estava em plena conformidade com o nível europeu. Agora espero mais dele, porque ele é um jogador muito talentoso e o seu nível profissional está subindo. Passou a ter uma abordagem muito mais responsável em relação ao trabalho, sente grande responsabilidade perante o clube e os companheiros de equipe. O Bernard também deu valor ao que o clube fez por ele e espero que tenha vontade de compensar devidamente o Shakhtar. Quero que ele venha a ser um líder no campo e traga vantagem para a equipe”, apontou.
A parceria entre os dois durou até a temporada 2015/2016, a última de Mircea à frente do Shakhtar. Bernard, por outro lado, permaneceu na Ucrânia até 2018.
Trajetória de Mircea Lucescu
Ex-ponta-direita, Lucescu foi capitão da Romênia na Copa do Mundo de 1970, chegando a enfrentar o Brasil de Pelé, e marcou 57 gols em 250 partidas pelo Dinamo Bucareste. Como treinador, teve carreira marcada pela longevidade e pela capacidade de montar equipes competitivas.
No Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, tornou-se ídolo ao conquistar diversos títulos – entre os quais o da Liga Europa em 2008/09 – e criou forte laço com os brasileiros. Um dos atletas treinados por ele foi Bernard, meia-atacante do Atlético.
Lucescu ainda trabalhou em clubes como Galatasaray, Besiktas (Turquia), Brescia, Inter de Milão (Itália) e Dinamo de Kiev (Ucrânia). Ele venceu o Campeonato Ucraniano em nove oportunidades como técnico, além de duas edições da Liga da Turquia.
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