Reserva no Cruzeiro há seis meses, Lucas Silva pode ajudar na reta final do Brasileirão

Reserva no Cruzeiro há seis meses, Lucas Silva pode ajudar na reta final do Brasileirão

A queda não aconteceu por uma mudança repentina de rendimento ou por algum problema físico. Ela está diretamente relacionada à chegada de Artur Jorge e à maneira como o treinador português enxerga o meio-campo ideal para o Cruzeiro.

Os números ajudam a dimensionar a transformação. Lucas disputou 49 partidas em 2025, quase o dobro das 28 que tem em 2026. Foram 50 jogos em 2024. Neste ano, soma 1337 minutos, 14 partidas como titular, um gol e duas assistências.

Desde abril, quando começou jogando e permaneceu em campo durante os 90 minutos do empate por 2 a 2 com o Goiás, pela Copa do Brasil, Lucas não voltou a iniciar uma partida nem a completar um jogo pelo Cruzeiro. A sequência já chega a 28 partidas sem o volante aparecer entre os titulares.

Lucas Silva é perseguido por Carrillo em Cruzeiro x Corinthians - (foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)
Lucas Silva é perseguido por Carrillo em Cruzeiro x Corinthians(foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)

De pilar com Jardim a reserva

A trajetória de Lucas na temporada ajuda a mostrar que a perda de espaço não foi uniforme. No Campeonato Mineiro, ainda sob o comando de Tite, ele foi titular nas seis partidas que disputou.

No Brasileiro, porém, foram 17 jogos e apenas seis como titular. Na Libertadores, entrou em campo três vezes e começou uma partida. Na Copa do Brasil, disputou dois jogos e foi titular em um deles.

A concorrência no setor também aumentou. Gerson é o jogador da posição com mais presença no time: 44 jogos, sendo 41 como titular. Romero soma 38 partidas e 35 titularidades. Matheus Henrique tem 41 jogos e começou 19. Até Ze Lucas, recém-chegado, já disputou oito partidas e foi titular em quatro.

Lucas, portanto, deixou de ser uma das primeiras opções para uma posição que, no início do ano e no fim da última temporada, tinha nele um dos principais pontos de equilíbrio. A mudança ficou ainda mais evidente depois da chegada de Artur Jorge.

Lucas Silva comemora em partida pelo Cruzeiro - (foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)
Lucas SIlva foi pilar do Cruzeiro em 2025(foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)

Artur explica por que Lucas joga menos

O treinador português nunca escondeu a admiração pelo volante. No início de setembro, após a vitória sobre o Athlético-PR, por 3 a 1, no Mineirão, chegou a classificá-lo como um jogador histórico do Cruzeiro e ressaltou seu caráter e sua importância para o clube.

“Eu adoro o Lucas Silva, é um jogador de caráter enormíssimo, de uma história gigante no Cruzeiro. Eu também fui símbolo de um clube em Portugal e sei o que significa. O Lucas é de fato um jogador histórico aqui dentro.”

A explicação para a perda de espaço, segundo Artur, está menos relacionada à qualidade técnica e mais ao modelo de jogo.

“O fato de ter jogado menos tempo comigo tem a ver apenas com aquilo que é a dinâmica e a estrutura habitual desse Cruzeiro. Somos uma equipe que está muitas vezes em zona alta a tentar pressionar e isso exige muita mobilidade, uma grande disponibilidade para termos, sobretudo, sem bola, jogadores que se entreguem muito ao jogo.”

Artur foi ainda mais direto ao separar as duas características.

“Com bola a jogar, é um dos melhores que temos, mas temos que ter dinâmica, e o que eu quero para a equipe exige muito disso.”

Está aí o principal motivo para o “sumiço” de Lucas Silva. Com a bola, o treinador o considera um dos melhores do elenco. Sem ela, porém, entende que o modelo exige intensidade, mobilidade e capacidade de pressionar durante longos períodos.

Artur Jorge, técnico do Cruzeiro - (foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press)
Artur Jorge, técnico do Cruzeiro(foto: Ramon Lisboa/EM/DA Press)

Cruzeiro também precisa de cadência

A justificativa de Artur Jorge faz sentido dentro do modelo que o treinador pretende implementar. O Cruzeiro busca pressionar alto, recuperar a bola rapidamente e manter intensidade mesmo quando está sem a posse. Lucas Silva, por outro lado, nunca construiu sua carreira em torno da velocidade ou da explosão física.

Sua característica é outra. O volante tem qualidade para organizar a saída de bola, encontrar passes entre linhas, controlar o ritmo da partida e, sobretudo, cadenciar. É o tipo de jogador capaz de diminuir a velocidade de um jogo quando o time precisa respirar ou acelerar a circulação quando encontra espaço.

São valências diferentes daquelas valorizadas prioritariamente por Artur. Mas é justamente aí que a ausência de Lucas pode ser questionada.

O Cruzeiro passou por momentos críticos em 2026 nos quais teve dificuldades para controlar partidas. Nas eliminações para Flamengo, na Libertadores, e Atlético, na Copa do Brasil, a equipe encontrou adversários que conseguiram pressioná-la em determinados momentos e dificultar a saída.

Além disso, o time atravessou uma sequência de 11 partidas consecutivas em que marcou e sofreu gols. Foram 16 gols feitos e 16 sofridos no período.

Não significa que Lucas Silva seria capaz, sozinho, de solucionar esses problemas. Tampouco que sua entrada necessariamente mudaria o desempenho da equipe. Mas suas características oferecem uma alternativa que o Cruzeiro pouco utilizou na segunda metade da temporada.

Não é preciso transformar Lucas em protagonista

A discussão, portanto, não precisa ser sobre Lucas Silva voltar imediatamente ao time titular. O volante pode ser útil justamente como uma peça complementar.

Em determinados jogos, especialmente contra adversários que pressionem alto ou quando o Cruzeiro precise controlar uma vantagem, sua capacidade de retenção e distribuição pode ser mais valiosa do que a intensidade de um jogador de características predominantemente físicas.

Lucas também pode oferecer uma alternativa para momentos em que o Cruzeiro precisa colocar a bola no chão e recuperar o controle da partida.

A questão é que, em um elenco no qual os principais concorrentes também não apresentam rendimento tão incontestável a ponto de tornar a escolha óbvia em todos os cenários, manter Lucas tão distante do time reduz o leque de possibilidades do treinador.

Gerson, Romero e Matheus Henrique tiveram muito mais espaço. Ze Lucas, mesmo recém-chegado ao grupo principal, também ganhou oportunidades rapidamente. Lucas, enquanto isso, passou a observar boa parte dos jogos do banco.

Lucas Romero comemorando gol do Cruzeiro com Matheus Henrique - (foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)
Romero e Matheus Henrique têm mais minutos que Lucas SIlva na temporada(foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)

Lucas aceita a disputa

O próprio jogador já reconheceu a concorrência no setor e afirmou que encara a situação com naturalidade, em entrevista concedida no começo de setembro.

“Vejo que o meio-campo do Cruzeiro é talvez a posição mais concorrida e assumo a responsabilidade sempre, liderança também. Então, tive momentos como titular, também tive momentos que fiquei no banco, mas tô ali à disposição para ajudar para o que der e vier.”

Lucas também deixou claro que está preparado para contribuir independentemente do papel que receber.

“Vejo o cenário aí nesse segundo semestre muito importante, no qual me sinto preparado para os desafios, sejam eles quais forem, tanto jogando ou no banco também. Então, muitos jogos, muitos desafios no qual me sinto preparado para a responsabilidade.”

A postura combina com a própria trajetória do jogador no clube. Lucas conhece a pressão de jogar pelo Cruzeiro e sabe que sua experiência pode ser útil em diferentes contextos.

Dez jogos para mudar o cenário

O Cruzeiro tem dez partidas restantes na temporada, todas pelo Campeonato Brasileiro. É pouco tempo, mas suficiente para que Artur Jorge precise utilizar diferentes características do elenco.

Lucas Silva dificilmente deixará de ser um jogador menos intenso do que aqueles que o treinador prefere para determinadas funções. Isso não mudou com o passar dos anos e tampouco é novidade em sua carreira.

Durante boa parte da trajetória profissional, Lucas compensou a menor velocidade com leitura de jogo, passe, posicionamento e capacidade de controlar o ritmo. Foi justamente utilizando essas valências que se tornou importante no Cruzeiro de 2025 e acumulou 49 partidas naquela temporada. Agora, com Artur Jorge, essas mesmas características passaram a ser insuficientes para garantir espaço.

A reta final pode mostrar se o treinador continuará priorizando exclusivamente a intensidade ou se encontrará situações em que a capacidade de Lucas de organizar e cadenciar o jogo poderá compensar aquilo que lhe falta fisicamente.

O volante não precisa necessariamente voltar a ser o Lucas Silva de 2025. Mas, diante de dez jogos pela frente e de um Cruzeiro que ainda busca maior controle sobre as partidas, recuperar parte daquele jogador pode ser uma das alternativas à disposição de Artur Jorge.

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