Cruzeiro campeão da Libertadores: como o Estado de Minas relatou a conquista de 1976

Cruzeiro campeão da Libertadores: como o Estado de Minas relatou a conquista de 1976

Naquele ano, o saldo de gols não era computado. Como o Cruzeiro venceu a primeira partida (4 a 1) e o River triunfou na segunda (2 a 1), as equipes se encontraram em campo neutro – Estádio Nacional, em Santiago, no Chile – para decidir o troféu. Os minutos finais do terceiro duelo reservaram emoção e aflição.

“Os minutos finais da partida foram altamente dramáticos, e o juiz deu nove minutos de desconto. Quando ele apitou pela última vez, era 23h49 da noite de ontem em BH, e uma explosão de alegria tomou conta da cidade: carros buzinando, foguetes estourando, gente saindo de casa para comemorar. Um carnaval que rompeu pela madrugada adentro”, registrou o EM.

O tom dramático foi dado especialmente por Joãozinho. Qual torcedor não se lembra da falta nada ensaiada que deu o título à Raposa? Aos 43 minutos do segundo tempo, enquanto Nelinho – o batedor oficial – se preparava para cobrar, o camisa 10 de 22 anos assumiu a responsabilidade. Como quem nada queria, aproximou-se da redonda e, quando autorizado, finalizou. No ângulo.

“Falta perigosa em cima de Palhinha, na meia-lua, e o gol sensacional de Joãozinho, recuperando-se de tudo de errado que havia feito durante a partida. Foi sensacional mesmo. Primeiro, a catimba para a falta ser batida. Barreira andando e Piazza reclamando. Quando Nelinho deu as costas para correr, Joãozinho, sem tomar distância, bateu de surpresa. Foi um chute espetacular. De pé direito, em curva… Golaço. O gol que valeu a taça da Libertadores”

Arquivo Estado de Minas

‘O cara que mais alegrava a Toca’

O jornal relatou a catimba a partir daquele tento e a homenagem a Roberto Batata. O lendário camisa 7 morreu aos 27 anos, em 13 de maio, horas depois de balançar a rede uma vez na goleada acachapante por 4 a 0 sobre o Alianza Lima-PER, no Mamute, em Lima, pela triangular semifinal. Quando chegou em Belo Horizonte, o ponta pegou o carro para visitar a família em Três Corações, como de costume. O que saiu do roteiro foi o desfecho da viagem. No quilômetro 182 da rodovia Fernão Dias, envolveu-se em um acidente fatal.

“Depois, catimba total. Laércio, preparador físico, entrou em campo para abraçar Joãozinho e foi agredido por Alonso. Tumulto em campo. Mais invasão. O massagista Guido, erradamente, deu um soco em Alonso, que mais tarde foi expulso. Foram quase cinco minutos de paralisação. Na saída da bola, a vez de Ronaldo também ser expulso porque apertou Landaburu irregularmente, querendo ganhar mais tempo. Mais quatro minutos de prorrogação. O Cruzeiro abafando o terrível desespero do River Plate. Depois, a emoção e as lágrimas. Todos os jogadores de joelho, rezando no gramado, lembrando-se de Roberto Batata”

Arquivo Estado de Minas

“O maior título do Cruzeiro e de todo o futebol de Minas é uma homenagem póstuma de seus companheiros a Roberto Batata, o cara que mais alegrava a Toca da Raposa e um dia deixou todo mundo chorando… Piazza, Morais e Palinha o aconselharam a não ir. Disseram que não havia dormido à noite e que a viagem podia ser perigosa. Roberto Batata concordou, mas a saudade foi maior… Ele foi depressa demais, dentro de mais saudade. Queria chegar rápido e acabou não chegando… No fim da tarde seguinte, seus companheiros prometeram ganhar a Taça Libertadores”, diz outro trecho sobre a fatalidade.

As avaliações aos jogadores do Cruzeiro

Como percebido anteriormente, Joãozinho – o mais novo do time, com 22 anos – não havia agradado o cronista do Estado de Minas antes de marcar o gol do título. Um intertítulo para algumas avaliações do jornal. O goleiro Raul e o atacante Ronaldo receberam o status de melhores em campo.

  • Joãozinho: ainda não perdeu a mania de tentar sempre mais um drible. Limpava a jogada e, mesmo tenho Palhinha e Ronaldo livres, tentava uma nova passagem. Aí perdia a bola. Mas ele compensou todos os erros no gol da vitória. Foi um gol de vingança. Ele teve a mesma malícia dos argentinos e pegou a defesa do River totalmente desprotegida”
  • Raul: o melhor de todos. Garantiu a vitória no primeiro tempo com três defesas espetaculares. Não teve culpa nos dois gols do River Plate e, depois do empate, tranquilizou a defesa inteira. Principalmente Morais e Vanderlei, que perderam o controle e deixaram o ataque argentino muito à vontade”
  • Nelinho: também apareceu bem. Fez boas antecipações e não perdeu a calma na hora em que o River mais pressionou. Apoiou muito, procurando Palhinha e Ronaldo em passes longos. Foi perfeito na cobrança de pênalti. Chutou para um lado e mandou o goleiro para o outro”.
  • Piazza: melhor do que no jogo em Buenos Aires, mas não mostrou o futebol que sabe. No início da partida, voltou a errar muitos passes. Mais tarde, se recuperou e tranquilizou o meio-campo. Seu grande mérito foi agir como verdadeiro capitão da equipe. Brigou com o juiz e acalmou seus companheiros”
  • Palhinha: Passarella e Artico ficaram em cima dele o tempo todo. Foi falta sobre falta e ele não pôde mostrar muitas coisas. Mesmo assim, lutou como um leão. Dividiu bolas com a defesa do River e fez boas tabelas com Ronaldo”.
  • Ronaldo: sua experiência ajudou muito o Cruzeiro. Catimbou na hora certa. Provocou o pênalti e comandou o ataque. Dividiu com Raul o título de melhor do time. Só falhou no lance da expulsão. O jogo estava no fim, o River quase batido e não era preciso aquela catimba com o goleiro Landaburu”.

Manchetes utilizadas pelo Estado de Minas

  • “3 a 2 na ‘negra’ de Santiago. A Taça Libertadores é do Cruzeiro”
  • “Grande campeão da América do Sul”
  • “Lembrando 1966, a Taça Brasil, os bons tempos”
  • “A justiça: o melhor é campeão”
  • “Nossa cidade explode de alegria”
  • “A promessa cumprida: a taça de Roberto Batata”
  • “A vitória que devolve ao Brasil um título que muitos sonham ter”

A notícia Cruzeiro campeão da Libertadores: como o Estado de Minas relatou a conquista de 1976 foi publicada primeiro no No Ataque por Sofia Cunha

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