Driblador, Joãozinho conta como se livrava de jogo violento de adversários na Libertadores

Os dribles, a velocidade e a ousadia fizeram de Joãozinho um dos maiores ídolos da história do Cruzeiro. Mas essas mesmas características também o transformavam em alvo constante dos adversários nos desafios do clube na década de 1970.
Em entrevista exclusiva ao No Ataque, concedida nessa terça-feira (29/7), no Mineirão, o eterno “Bailarino da Toca” relembrou as dificuldades enfrentadas durante a histórica campanha do título da Copa Libertadores de 1976 e contou qual era o “segredo” para escapar da violência comum nos confrontos contra argentinos e uruguaios.
Segundo Joãozinho, naquele tempo o ambiente da Libertadores era muito diferente do atual.
“Naquela época não existia televisão. Era muito difícil. Os estádios não eram tão estruturados como hoje, principalmente na Argentina. Antes da Copa de 1978 era tudo muito curto, muito pequeno, alambrados próximos, nos xingavam, jogavam pedras, moedas. Era muito difícil jogar em campos assim.”
Joãozinho, ídolo do Cruzeiro
Além da pressão das arquibancadas, o ídolo celeste lembra que a arbitragem também representava um obstáculo para os clubes brasileiros.
“Jogamos contra o Independiente em 1975 e perdemos por 3 a 0, mas, se eles quisessem fazer seis gols, fariam, por causa dessa pressão toda e também por conta dos árbitros, que falavam espanhol. Não tínhamos esse preparo. Uruguaios e argentinos tinham mais facilidade para lidar com os juízes.”
Como Joãozinho escapava das entradas duras
Driblador e um dos principais jogadores do Cruzeiro, Joãozinho revelou que frequentemente era avisado pelos adversários de que seria alvo de entradas violentas durante as partidas. A resposta, porém, nunca era revidar.
“Infelizmente tive acontecimentos em que os argentinos falavam que iam dar pontapé em mim. Como eu não era de briga, de confusão, só ouvia e continuava jogando meu futebol.”
Joãozinho, o Bailarino da Toca
O atacante explicou que também adaptava seu estilo de jogo para evitar lesões que poderiam comprometer sua carreira.
“Às vezes eu evitava muita coisa para não quebrar uma perna, machucar. Acontecia muito com argentinos e uruguaios. Eles sempre levam para esse lado de não aceitar perder. São muito bravos, mas são bons jogadores. O ímpeto deles para jogar faz a diferença, é muita raça.”
O ‘truque’ para escapar da marcação
Além da inteligência para evitar confrontos físicos, Joãozinho contou que tinha uma característica que o ajudava a surpreender os marcadores. Em vez de cadenciar, procurava sempre atacar o adversário e acelerar o jogo.
“Eu tinha uma coisa boa: queria atacar. Pegava a bola e não queria tocar para trás ou para o lado, era sempre em direção ao gol.”
Outra mania era cobrar rapidamente as faltas sofridas, antes que a defesa pudesse se reorganizar.
“Se faziam falta em mim, eu já pegava e batia rápido. Os diretores do Cruzeiro falavam: ‘Você sofre falta feia e bate rápido’. Eu só visava o gol.”
Joãozinho também revelou que mudou a forma de atuar ao longo da carreira. Orientado pelo técnico Hilton Chaves, passou a cortar para o meio e finalizar mais, em vez de apenas chegar à linha de fundo para cruzar.
“Eu sou ambidestro, usava a direita, mas jogava pela esquerda. Comecei a puxar para o meio e chutar para o gol. Depois daquilo comecei a fazer gols. Passei a ir à linha de fundo, mas também surpreendia o zagueiro cortando para o meio.”
A mudança transformou o ponta-esquerda em um goleador. Depois de quase não marcar nas categorias de base, terminou a passagem pelo Cruzeiro com 119 gols.
Campanha histórica na Libertadores
Ao recordar a conquista continental de 1976, Joãozinho ressaltou que o Cruzeiro precisou superar adversários tradicionais e um ambiente extremamente hostil para levantar a primeira Libertadores da história do clube.
A Raposa disputou 13 partidas, com 11 vitórias, um empate e apenas uma derrota, marcou 46 gols e sofreu 17. O título foi conquistado no desempate da final contra o River Plate, em Santiago, no Chile, quando Joãozinho marcou, aos 43 minutos do segundo tempo, o histórico gol da vitória por 3 a 2.
Antes disso, o time eliminou adversários como Internacional, Olimpia-PAR, Sportivo Luqueño-PAR, LDU-EQU e Alianza Lima-PER, consolidando uma das campanhas mais dominantes da história da competição.
Jogos do Cruzeiro na Libertadores de 1976
Primeira fase
- 07/03 – Cruzeiro 5 x 4 Internacional – Mineirão, Belo Horizonte
- 14/03 – Sportivo Luqueño 1 x 3 Cruzeiro – Defensores del Chaco, Assunção
- 18/03 – Olimpia 2 x 2 Cruzeiro – Defensores del Chaco, Assunção
- 24/03 – Cruzeiro 4 x 1 Sportivo Luqueño – Mineirão, Belo Horizonte
- 28/03 – Internacional 0 x 2 Cruzeiro – Beira-Rio, Porto Alegre
- 04/04 – Cruzeiro 4 x 1 Olimpia – Mineirão, Belo Horizonte
Semifinal
- 09/05 – LDU 1 x 3 Cruzeiro – Atahualpa, Quito
- 12/05 – Alianza Lima 0 x 4 Cruzeiro – El Mamute, Lima
- 20/05 – Cruzeiro 7 x 1 Alianza Lima – Mineirão, Belo Horizonte
- 30/05 – Cruzeiro 4 x 1 LDU – Mineirão, Belo Horizonte
Final
- 21/07 – Cruzeiro 4 x 1 River Plate – Mineirão, Belo Horizonte
- 28/07 – River Plate 2 x 1 Cruzeiro – Monumental de Núñez, Buenos Aires
- 30/07 – Cruzeiro 3 x 2 River Plate – Estádio Nacional, Santiago
Participações na campanha
- 13 jogos: Raul, Nelinho, Moraes e Eduardo
- 12 jogos: Vanderlei, Jairzinho e Joãozinho
- 11 jogos: Darci, Zé Carlos, Palhinha e Piazza
- 7 jogos: Isidoro
- 6 jogos: Roberto Batata e Ronaldo
- 5 jogos: Ozires
- 3 jogos: Valdo
- 2 jogos: Silva
- 1 jogo: Eli Mendes e Mariano
Artilheiros do Cruzeiro na Libertadores de 1976
- 13 gols: Palhinha
- 11 gols: Jairzinho
- 8 gols: Joãozinho
- 6 gols: Nelinho
- 3 gols: Eduardo
- 2 gols: Roberto Batata
- 1 gol: Darci, Ronaldo e Valdo
Joãozinho no Cruzeiro
Joãozinho é um dos maiores ídolos da história do Cruzeiro. O ex-ponta-esquerda disputou 485 partidas com a camisa celeste, marcou 119 gols e conquistou a Copa Libertadores de 1976, além de cinco Campeonatos Mineiros (1973, 1974, 1975, 1977 e 1984).
Conhecido como “Bailarino da Toca”, eternizou seu nome principalmente pela habilidade, pelos dribles e pelo gol que garantiu ao Cruzeiro o primeiro título da Libertadores, na vitória por 3 a 2 sobre o River Plate, no jogo de desempate da final, em Santiago, no Chile.
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