Artur Jorge, técnico do Cruzeiro, expõe forma como pensa futebol: ‘Ferramenta de amor’

Artur Jorge, técnico do Cruzeiro, expõe forma como pensa futebol: ‘Ferramenta de amor’

Em entrevista ao Charla Podcast, nesta quarta-feira (30/9), o português explicou que trabalha a estrutura tática a partir de um “esqueleto”, normalmente no 4-4-2 ou no 4-2-3-1, mas ressaltou que a formação inicial é apenas o ponto de partida.

“O importante é a dinâmica que a equipe consegue ter”, afirmou.

A declaração ajuda a explicar uma das características mais marcantes do Cruzeiro sob seu comando: a busca por protagonismo mesmo quando isso significa assumir riscos.

Artur Jorge, técnico do Cruzeiro - (foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)
Artur Jorge, técnico do Cruzeiro(foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)

‘Precisamos de coragem’

Artur Jorge afirmou que um dos princípios de seu trabalho é ter uma equipe voltada ao ataque.

“Temos um conceito de atacar muito, marcar muitos gols”, explicou.

A ideia, entretanto, traz uma consequência: para atacar com mais jogadores e tentar controlar as partidas no campo ofensivo, o time também precisa aceitar espaços e riscos.

“Nos expomos porque precisamos ter coragem para implementar princípios”, disse.

A exposição esteve presente em diferentes momentos da temporada do Cruzeiro. Desde agosto, a equipe chegou a passar 11 partidas consecutivas marcando e sofrendo gols, entre compromissos pelo Campeonato Brasileiro, Libertadores e Copa do Brasil.

Nesse intervalo, foram seis vitórias, dois empates e três derrotas, com 16 gols marcados e 16 sofridos.

A sequência terminou depois das eliminações nas competições mata-mata. A equipe deixou a Libertadores diante do Flamengo e a Copa do Brasil contra o Atlético, ambas após perder por 2 a 1 o segundo jogo dos confrontos.

No Brasileiro, porém, o Cruzeiro continuou competitivo e chegou à reta final da temporada entre os primeiros colocados.

É justamente nesse contraste que a ideia de Artur Jorge ganha significado: o treinador não pretende abrir mão de uma identidade ofensiva mesmo quando ela aumenta o grau de risco das partidas.

‘Precisamos ter identidade e personalidade’

Para Artur Jorge, a questão não é simplesmente escolher entre atacar ou se defender. O objetivo é fazer com que o Cruzeiro tenha capacidade de controlar o jogo a partir de seus próprios princípios.

“Precisamos de competência nas ações, para ser uma equipe dominadora onde quer que seja e contra quem seja”, afirmou.

O treinador reconhece que isso não significa acreditar que o Cruzeiro será superior tecnicamente a todos os adversários.

“Mesmo não sendo os melhores do mundo, precisamos ter identidade e personalidade.”

A frase resume uma característica que Artur Jorge procura cobrar do elenco: independentemente do adversário, a equipe precisa saber o que pretende fazer com a bola e como pretende reagir quando não a tiver.

Por isso, o sistema 4-4-2 ou 4-2-3-1 não é tratado pelo português como uma fórmula rígida. A estrutura pode mudar, mas os princípios precisam permanecer.

Artur Jorge - (foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)
Artur Jorge, técnico do Cruzeiro(foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)

Um futebol para quem está na arquibancada

A filosofia do treinador também passa pela relação com o torcedor. Em uma temporada na qual o Cruzeiro voltou a disputar as primeiras posições do Campeonato Brasileiro e chegou às fases decisivas das principais competições continentais e nacionais, Artur Jorge diz que o futebol não pode ser pensado apenas como resultado.

“Para mim, o futebol é um espetáculo, entretenimento e preciso sentir prazer com o futebol e passar isso para as pessoas que estão ali fora.”

A referência aos torcedores ganha peso especialmente no Mineirão, onde o Cruzeiro levou 968.353 pessoas em 26 partidas como mandante até setembro, com média de 37.244 torcedores por jogo.

Em agosto, por exemplo, o clube registrou públicos superiores a 59 mil pessoas contra Boca Juniors, Atlético e Flamengo.

É para esse público que Artur Jorge diz querer entregar uma equipe capaz de provocar emoção.

“Se eu conseguir sentir prazer com o futebol e passar isso para as pessoas que estão ali fora, os 60 mil, aí meu trabalho está feito.”

‘Uma ferramenta de amor’

A definição mais pessoal do treinador veio justamente ao explicar o que pretende que o futebol represente.

“Para mim, o futebol precisa ser uma ferramenta de amor e não de tristeza ou desilusão.”

A frase resume uma filosofia que vai além da escolha entre 4-4-2 e 4-2-3-1.

Artur Jorge quer que o Cruzeiro tenha uma identidade reconhecível: uma equipe que ataque, assuma riscos, tente dominar os adversários e, sobretudo, não abandone seus princípios diante das dificuldades.

A temporada mostrou também o outro lado dessa escolha. A equipe sofreu gols com frequência, perdeu jogos importantes nos mata-matas e conviveu com críticas justamente quando o risco assumido não foi acompanhado pelo resultado.

Ao mesmo tempo, o Cruzeiro construiu uma campanha competitiva no Brasileiro e chegou à reta final entre os primeiros colocados.

Para o treinador, entretanto, a questão central permanece sendo a mesma: não apenas vencer, mas fazer com que o torcedor reconheça no time uma maneira de jogar.

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