Cruzeiro preenche parte de ‘rombo’ com acordo milionário; entenda impacto
O valor não recompõe integralmente a receita prevista no contrato com a casa de apostas, mas perfaz cerca de 35% dos R$ 43 milhões pagos anualmente pela Betnacional.
A comparação, porém, revela uma particularidade. Os R$ 15 milhões oferecidos pelo governo representam um dos maiores contratos de patrocínio da história recente do Cruzeiro.
O valor só fica abaixo, entre os acordos já conhecidos, dos R$ 43 milhões da Betnacional e dos R$ 25 milhões anuais pagos pela Betfair no biênio 2023/2024.
R$ 15 milhões recompõem parte da perda
O acordo anunciado pelo governo prevê R$ 32 milhões para Atlético, Cruzeiro e América. Atlético e Cruzeiro receberão R$ 15 milhões cada, enquanto o América ficará com R$ 2 milhões. Os clubes estamparão marcas da Cemig e da Codemge/Codemig, ainda sem definição sobre a posição no uniforme.
O governador Mateus Simões afirmou que o cálculo levou em consideração dois parâmetros: o investimento histórico da Cemig em patrocínios esportivos e contratos de bancos estatais, como os mantidos pelo Banrisul com Grêmio e Internacional.
O acordo também estabelece contrapartidas aos clubes, como a manutenção do futebol feminino, das categorias de base e a execução de programas para levar torcedores de baixa renda aos estádios.
Para o Cruzeiro, o valor representa uma recomposição parcial. Se considerados apenas os R$ 43 milhões fixos do contrato com a Betnacional, ainda haveria uma diferença nominal de R$ 28 milhões entre as duas receitas.
A questão, portanto, passa a ser quanto desse espaço poderá ser preenchido por novos patrocinadores privados e quanto o clube precisará absorver internamente.
Governo paga mais que a Betfair de 2023 e 2024
O tamanho do novo contrato fica mais evidente quando traça-se um paralelo com os acordos anteriores.
A parceria com a Betfair começou em 2023, ainda na gestão de Ronaldo Fenômeno na SAF. Naquele biênio, a casa de apostas pagava R$ 25 milhões por temporada ao Cruzeiro. Posteriormente, o negócio brasileiro da Betfair foi incorporado à estrutura da Flutter Entertainment, que também passou a controlar a Betnacional após adquirir 56% da NSX, empresa responsável pela marca.
O contrato mais recente chegou a R$ 43 milhões fixos por temporada, valor que fez da parceria com a Betnacional o maior patrocínio da história do Cruzeiro.
Atualizado pela inflação, o valor de R$ 25 milhões de 2023/2024 equivaleria a aproximadamente R$ 29,5 milhões atualmente.
Nesse parâmetro, os R$ 15 milhões do Governo de Minas representam pouco mais da metade do valor corrigido do antigo contrato com a Betfair.
O novo patrocínio, portanto, está longe de substituir a receita da Betnacional. Mas também não é um valor extremamente inferior aos praticados na história recente do Cruzeiro.
Betnacional virou o maior patrocínio da história
A evolução dos contratos mostra como as casas de apostas ganharam espaço no uniforme celeste em pouco tempo.
Em 2023 e 2024, a Betfair pagava R$ 25 milhões anuais. Para 2025 e 2026, o acordo chegou a R$ 43 milhões fixos por temporada, com possibilidade de bônus que poderiam elevar o valor para até R$ 60 milhões em caso de cumprimento das metas previstas em contrato.
Foi, portanto, uma escalada rápida no valor do espaço mais nobre da camisa: de R$ 25 milhões para R$ 43 milhões anuais.
O novo acordo com o governo interrompe essa sequência, mas estabelece uma receita que, isoladamente, ainda estaria entre os maiores contratos de patrocínio já obtidos pelo Cruzeiro.
Bet era importante, mas não sustentava sozinha a receita do Cruzeiro
Os números do balanço de 2025 ajudam a dimensionar a perda. A SAF fechou o último exercício com R$ 599,17 milhões de receita operacional líquida. Os patrocínios responderam por R$ 280,01 milhões do faturamento bruto da operação.
Os R$ 43 milhões fixos da Betnacional correspondiam a:
- 7,2% da receita operacional líquida do Cruzeiro em 2025;
- 15,4% de toda a receita de patrocínios registrada no exercício.
A Betnacional era, individualmente, um contrato muito relevante para o Cruzeiro. Mas seus R$ 43 milhões não representavam a maior parte da receita comercial do clube.
Mesmo com a saída da patrocinadora máster, portanto, a SAF não perde toda a estrutura de patrocínios construída nos últimos anos.
Patrocínio cresceu não apenas por causa das bets
O próprio balanço ajuda a colocar a evolução em perspectiva. Em 2024, o Cruzeiro havia registrado aproximadamente R$ 50 milhões em receitas de patrocínio. Em 2025, o valor chegou a R$ 280 milhões — um salto de cerca de R$ 230 milhões em apenas um ano.
A expansão ocorreu em um período no qual o clube melhorou diversos contratos comerciais, incluindo acordos com Adidas e Betfair, posteriormente incorporada à operação da Betnacional. O portfólio também passou a contar com marcas como Supermercados BH, Cimed, Omo, Perdigão, Vilma, Álamo e Zé Delivery, entre outras.
A fotografia de 2025, portanto, não pode ser interpretada como uma dependência estrutural exclusiva das casas de apostas. A Raposa conseguiu elevar fortemente sua receita comercial ao mesmo tempo em que ampliou e diversificou sua carteira de parceiros.
Pedrinho admite impacto e espera novos patrocinadores
Pedro Lourenço, acionista majoritário da SAF, reconheceu que a proibição das bets provocou uma perda importante para os clubes, mas afirmou esperar que o movimento iniciado pelo governo mineiro ajude a abrir espaço para novos acordos.
“Todo mundo e o Brasil todo foi surpreendido nessa sexta-feira. É muito grande (o impacto) para os clubes. Estamos pensando e refazendo as contas, não é fácil falar hoje o tamanho dele, mas é muito grande. Com essas iniciativas do nosso governador que vão nos ajudar bastante, a gente espera retomar esse apoio das empresas mineiras com o patrocínio, acho que vai ser muito importante o pontapé nisso aí, vai nos ajudar bastante.”
Pedrinho também afirmou que o contrato com a Betnacional segue vigente e que o clube aguarda o desenrolar das medidas relacionadas às apostas.
“A lei diz que você não pode usar a propaganda, está suspenso. No primeiro momento, não pode usar propaganda. Nós temos contrato vigente, eles são nos dando todo apoio. Nós também achamos que essa medida provisória vai cair, é questão de tempo.”
Sobre uma eventual rescisão amigável, o dirigente ressaltou que o cenário também prejudica a empresa:
“Isso (possível rescisão amigável com a Betnacional) é tranquilo, porque todo mundo é prejudicado, eles são muito prejudicados. Em questão de valores… você tem uma empresa, está com a empresa montada, chega uma sexta-feira tem um decreto para ela fechar… estão revendo isso aí, não é fácil para eles. Esperamos que se resolva da melhor maneira.”
Desafio é preencher a diferença
A perda potencial é clara: R$ 43 milhões por temporada do contrato fixo com a Betnacional. A primeira recomposição também está definida: R$ 15 milhões do Governo de Minas.
A diferença nominal é de R$ 28 milhões, mas não necessariamente precisará ser coberta por um único novo patrocinador. O clube pode buscar uma combinação de novos parceiros, renegociações e valorização de outras propriedades comerciais.
O histórico recente mostra que existe espaço para isso. Em apenas um ano, a receita de patrocínios do Cruzeiro passou de R$ 50 milhões para R$ 280 milhões.
A questão que se abre para a SAF, portanto, não é apenas como substituir a Betnacional, mas como preservar o patamar comercial alcançado em 2025 sem depender de uma única categoria de anunciante.
Os R$ 15 milhões do Governo de Minas preenchem parte desse espaço. E, embora representem apenas cerca de um terço do contrato da Betnacional, já constituem, por si só, um dos maiores acordos individuais da história recente do Cruzeiro.
Os números de 2026 ainda não estão fechados. Por isso, será apenas no próximo balanço que será possível medir com precisão quanto a saída das bets efetivamente alterou o peso dos patrocínios nas finanças da SAF.
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