Campeão pelo Cruzeiro revela quantias de ‘bichos’ na várzea: ‘Valor alto’
Em entrevista ao No Ataque, Anderson revelou que as principais competições da várzea de São Paulo movimentam valores que podem surpreender quem ainda associa esse tipo de futebol apenas ao lazer. Segundo ele, há equipes que pagam entre R$ 700 e R$ 1000 por jogo aos atletas.
Os valores podem ser acompanhados por pagamentos para a assinatura com o clube e bonificações durante as competições. Anderson não especificou quanto recebe individualmente, mas explicou como funciona o modelo.
“Então, muitos jogadores que vêm do profissional preferem ficar na várzea, porque fecha-se com aquele time, se tem todo o suporte, todo jogo você vai ter o seu envelope. A várzea é uma renda extra, que ajuda a pagar contas, dívidas, ajudar em casa.”
Para o ex-jogador, a remuneração é uma das razões pelas quais atletas que passaram pelo futebol profissional continuam disputando torneios de várzea, especialmente em São Paulo.
‘Às vezes é melhor jogar a várzea que o profissional’
Anderson conhece os dois lados da moeda. Sua carreira profissional terminou justamente depois de uma experiência financeira complicada.
Em 2018, ele defendia o Toledo, do Paraná, e ficou três meses sem receber. O jogador havia levado a esposa e o filho para o estado e precisou enfrentar dificuldades financeiras longe de casa.
“Em 2018, eu tive uma passagem pelo Toledo, jogamos o Campeonato Paranaense e ficamos três meses sem receber. Levei a minha esposa e meu filho e passamos muita dificuldade. Foi muito ruim e complicado.”
Depois daquela experiência, Anderson retornou a São Paulo e, após conversar com a esposa, decidiu abandonar o futebol profissional.
Amigos o convidaram para defender o Jardim Verônia, equipe do bairro Jardim Verônia, em Ermelino Matarazzo, na Zona Leste de São Paulo. Anderson, que havia crescido jogando em campos de várzea, iniciou ali uma nova etapa da carreira.
E a experiência financeira no futebol profissional ajuda a explicar por que ele enxerga a várzea de outra maneira.
“Às vezes é melhor jogar a várzea que o profissional. Por exemplo, se joga-se um Campeonato Pernambucano ou a A2 do Paulista, tem-se um contrato de três meses. Se não der a sorte de pegar um time correto, não se recebe.”
Várzea deixou de ser apenas lazer
Anderson também descreve uma transformação no futebol de várzea paulista. Segundo ele, as principais equipes passaram a tratar a atividade de maneira cada vez mais profissional.
Os jogadores treinam durante a semana, cuidam da alimentação, fazem preparação física e precisam manter uma rotina compatível com o nível das competições.
“A várzea hoje em dia em São Paulo é um trabalho. Nós cuidamos durante a semana, nos preparamos e treinamos. Hoje a várzea é semiprofissional. Se não se cuidar, não tomar suplemento, alimentar bem, não dormir, não se consegue jogar a várzea, pois está em alto nível.”
A estrutura também ajuda a explicar a presença de ex-profissionais nos torneios.
Para Anderson, alguns jogadores que encerraram a carreira nos clubes profissionais encontram na várzea uma alternativa para continuar atuando, manter uma rotina competitiva e complementar a renda.
“Então, muitos jogadores que vêm do profissional preferem ficar na várzea, porque fecha-se com aquele time, se tem todo o suporte, todo jogo você vai ter o seu envelope.”
Anderson, ex-lateral do Cruzeiro
Do Cruzeiro à várzea
Antes de se tornar um dos nomes conhecidos do Jardim Verônia, Anderson viveu um dos momentos mais importantes da carreira justamente no Cruzeiro.
Ele chegou ao clube em 2005, vindo do Real Salvador, da Bahia. Em 2007, foi campeão invicto da Copa São Paulo de Futebol Júnior e marcou quatro gols durante a campanha.
O desempenho levou o lateral ao elenco profissional. Promovido por Paulo Autuori, ele disputou partidas pelo Cruzeiro no Campeonato Brasileiro daquele ano.
“Foi uma campanha maravilhosa. A gente foi campeão invicto. Fizemos sete jogos, ganhamos seis e empatamos um. E naquele ano eu consegui me destacar, fiz quatro gols na competição e a gente se sagrou campeão. Logo em seguida eu subi para o profissional.”
Anderson chegou a ser titular na derrota por 4 a 3 para o Paraná, no Mineirão, e também participou de jogos contra Corinthians e Fluminense.
Depois do Cruzeiro, passou por clubes como Ipatinga, Ponte Preta, Bragantino, Rio Claro, Veranópolis, Comercial, Águia, Desportivo Brasil, São Paulo-RS e Toledo. A carreira profissional, entretanto, terminou no Paraná.
Título de R$ 150 mil
Hoje, Anderson é um dos jogadores experientes do Jardim Verônia. Nesse domingo (27/9), participou da conquista da Super Copa Pioneer, uma das principais competições de várzea do Brasil.
O título foi conquistado diante de mais de nove mil pessoas na Arena Inamar, em Diadema, e rendeu R$ 150 mil ao campeão. O vice-campeão recebeu R$ 50 mil.
Anderson teve participação direta no lance do gol decisivo. Ele recebeu pela esquerda, levantou a cabeça e cruzou para Mendes. O atacante cabeceou, o goleiro defendeu e Igão marcou no rebote.
“Um jogo muito difícil. Do outro lado também tinha ex-profissionais. Fizemos um grande jogo, consegui acertar um grande cruzamento na cabeça do Mendes, o goleiro defendeu e o Igão, também um cara batalhador, guerreiro, conseguiu fazer o gol e a gente conseguiu conquistar esse título tão importante para a comunidade.”
O título ajuda a dimensionar o tamanho que algumas competições de várzea alcançaram. A Super Copa Pioneer reuniu 83 equipes e colocou frente a frente jogadores com diferentes trajetórias, incluindo atletas que passaram pelo futebol profissional.
O Jardim Verônia tinha nomes como Luís Felipe, ex-Palmeiras, Léo Jabá, ex-Corinthians, Nunes, com passagens por clubes como Bragantino e Santo André, e Mendes, que atuou pelo Avaí.
Ver esse post no Instagram
‘Na várzea é muito amor’
Apesar da dimensão financeira das competições, Anderson afirma que o dinheiro não é o principal motivo para sua permanência no Jardim Verônia.
A relação com o clube e com a comunidade se tornou parte central da vida dele depois do fim da carreira profissional.
“Na várzea é muito amor. As pessoas da comunidade amam o time de paixão.”
Anderson também destaca o envolvimento da família.
“Esse time eu amo, gosto de jogar, a comunidade me abraçou super bem, eu e minha família. Então, é diferente. Jogar nesse time é diferente. A gente ama de verdade, a gente ama de paixão.”
A combinação entre vínculo afetivo, competitividade e remuneração criou para Anderson uma segunda maneira de viver do futebol.
Ele pretende continuar jogando por mais dois ou três anos antes de parar definitivamente.
Aos 38, sua trajetória passou por dois mundos distintos. No primeiro, chegou ao profissional depois de conquistar uma Copinha pelo Cruzeiro, vestiu a camisa de diferentes clubes e enfrentou também a realidade dos salários atrasados. No segundo, encontrou na várzea paulista uma estrutura semiprofissional, torcida, comunidade e uma fonte de renda.
A notícia Campeão pelo Cruzeiro revela quantias de ‘bichos’ na várzea: ‘Valor alto’ foi publicada primeiro no No Ataque por Vitor de Araújo


