Do Cruzeiro à várzea: lateral decide final com cruzamento e conquista título de R$ 150 mil
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Mais de nove mil pessoas acompanharam a decisão da competição considerada uma das maiores do futebol de várzea do Brasil. O título valeu R$ 150 mil ao campeão. Para Anderson, porém, a conquista teve um significado que vai além da premiação.
Aos 38 anos, o ex-lateral do Cruzeiro encontrou na várzea aquilo que não conseguiu manter no futebol profissional: a relação de pertencimento a um time e a uma comunidade.
“Tomamos café da manhã juntos, fomos de ônibus, sentindo o calor da torcida, o Mar Vermelho (como é chamada a torcida do Verônia). Foi uma sensação única ganhar a maior Copa de São Paulo em um time que você gosta, que te abraçou super bem”, contou Anderson ao No Ataque.
O Jardim Verônia, equipe da Zona Leste de São Paulo, tornou-se a casa do ex-jogador depois que ele encerrou a carreira profissional, em 2018. Desde então, a ligação entre atleta, clube e comunidade cresceu até chegar ao título conquistado diante de uma multidão.
Do Cruzeiro até o Jardim Verônia
A história de Anderson com o futebol começou muito antes da várzea. Em 2005, ele chegou ao Cruzeiro vindo do Real Salvador, da Bahia. Dois anos depois, viveu um dos momentos mais importantes da carreira.
Anderson foi campeão invicto da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2007 pelo Cruzeiro. A equipe comandada por Enderson Moreira venceu seis partidas e empatou uma. O lateral marcou quatro gols na campanha e, depois do título, foi promovido ao profissional por Paulo Autuori.
“Foi uma campanha maravilhosa. A gente foi campeão invicto. Fizemos sete jogos, ganhamos seis e empatamos um. E naquele ano eu consegui me destacar, fiz quatro gols na competição e a gente se sagrou campeão. Logo em seguida eu subi para o profissional”, relembrou.
No time que conquistou a Copinha estavam jogadores como o goleiro Rafael, os zagueiros Maicon e Wellington, o volante Paulinho Dias e os atacantes Guilherme e Jonathas. Alguns deles também foram promovidos ao elenco principal.
Anderson chegou a disputar o Campeonato Brasileiro de 2007. Foi titular da derrota por 4 a 3 para o Paraná, no Mineirão, e também participou de jogos contra Corinthians e Fluminense.
A passagem pelo profissional, entretanto, não se consolidou no mais alto escalão do futebol brasileiro. O lateral foi emprestado ao Ipatinga em 2008 e seguiu carreira por diferentes clubes do futebol brasileiro, com passagens por Bragantino, Ponte Preta, Rio Claro, Veranópolis, Comercial, Águia, Desportivo Brasil, São Paulo-RS, entre outros. O último clube profissional foi o Toledo, em 2018.
Foi justamente ali que a relação com o futebol profissional chegou ao fim.
Três meses sem salário e a decisão de parar
Anderson estava no Toledo para disputar o Campeonato Paranaense quando passou por uma situação que marcou sua vida: o clube ficou três meses sem pagar os jogadores.
Ele havia levado a esposa e o filho para o Paraná e precisou lidar com as dificuldades financeiras longe de casa.
“Em 2018, eu tive uma passagem pelo Toledo, jogamos o Campeonato Paranaense e ficamos três meses sem receber. Levei a minha esposa e meu filho e passamos muita dificuldade. Foi muito ruim e complicado”, contou.
Depois da experiência, voltou para São Paulo e conversou com a esposa antes de tomar uma decisão definitiva e parou de jogar futebol profissional.
A escolha, porém, não significou abandonar o futebol. Anderson cresceu jogando em campos de várzea e reencontrou antigos amigos quando voltou para São Paulo.
Eles fizeram um convite simples: jogar pelo Jardim Verônia, equipe do bairro Jardim Verônia, em Ermelino Matarazzo, distrito da Zona Leste de São Paulo. Foi assim que começou uma “segunda” carreira.
‘Na várzea é muito amor’
A adaptação não foi imediata. Depois de anos no futebol profissional, Anderson estava acostumado a outro ritmo e outra dinâmica. Na várzea, encontrou um jogo mais físico, intenso e ligado à comunidade.
“Eu cresci na várzea, sempre joguei na várzea nos campos de barro aqui em São Paulo. Meus amigos disseram: ‘você jogará conosco quando parar de jogar futebol profissional’. Em 2018, quando parei, vim para o Jardim Verônia, que é da Ermelino Matarazzo.”
O primeiro choque veio dentro de campo: “No profissional é mais posicionado, você não corre tanto, não é muita pegada. Eu tinha o posicionamento do profissional, mas fiquei meio perdido. Depois fui pegando o ritmo da várzea e estou até hoje.”
A adaptação, entretanto, foi acompanhada por uma identificação cada vez maior com o clube.
“Na várzea é muito amor. As pessoas da comunidade amam o time de paixão.”
Anderson diz que a relação ultrapassou o futebol.
“Esse time eu amo, gosto de jogar, a comunidade me abraçou super bem, eu e minha família. Então, é diferente. Jogar nesse time é diferente. A gente ama de verdade, a gente ama de paixão.”
Foi essa relação que tornou a conquista da Super Copa Pioneer ainda mais especial.
Final com cara de futebol profissional
O Jardim Verônia não chegou à decisão apenas com jogadores conhecidos da várzea. O elenco reunia nomes com experiência no futebol profissional.
Estavam no time o lateral-direito ex-Palmeiras Luís Felipe, os atacante Léo Jabá, ex-Corinthians, Nunes, com passagens por Santo André e Bragantino, e Mendes, que atuou pelo Avaí na temporada passada.
Do outro lado, o Real Madruga também tinha ex-profissionais. A final foi equilibrada, e o gol do título nasceu justamente dos pés de Anderson.
“Um jogo muito difícil. Do outro lado também tinha ex-profissionais. Fizemos um grande jogo, consegui acertar um grande cruzamento na cabeça do Mendes, o goleiro defendeu e o Igão, também um cara batalhador, guerreiro, conseguiu fazer o gol e a gente conseguiu conquistar esse título tão importante para a comunidade.”
Igão foi o único jogador do Jardim Verônia em campo na final que nunca havia atuado profissionalmente.
Várzea virou trabalho
A realidade da várzea paulista também mudou. Para Anderson, os grandes torneios deixaram de ser apenas uma reunião de amigos aos fins de semana. Existe preparação, cobrança, estrutura e remuneração.
“A várzea hoje em dia em São Paulo é um trabalho. Nós cuidamos durante a semana, nos preparamos e treinamos. Hoje a várzea é semiprofissional. Se não se cuidar, não tomar suplemento, alimentar bem, não dormir, não se consegue jogar a várzea, pois está em alto nível.”
A remuneração também ajuda a explicar por que tantos jogadores com passagem pelo futebol profissional permanecem na várzea.
Anderson conta que, em competições de expressão, os atletas podem receber valores pela assinatura do vínculo com a equipe e bonificações por partida. Segundo ele, há times que pagam entre R$ 700 e R$ 1000 por jogo.
“Então, muitos jogadores que vêm do profissional preferem ficar na várzea, porque fecha-se com aquele time, se tem todo o suporte, todo jogo você vai ter o seu envelope. A várzea é uma renda extra, que ajuda a pagar contas, dívidas, ajudar em casa.”
A diferença para algumas divisões do futebol profissional, na visão dele, pode ser surpreendente.
“Às vezes é melhor jogar a várzea que o profissional. Por exemplo, se joga-se um Campeonato Pernambucano ou a A2 do Paulista, tem-se um contrato de três meses. Se não der a sorte de pegar um time correto, não se recebe.”
Ex-profissionais viraram parte da várzea
A presença de jogadores conhecidos também passou a ser uma das características das grandes competições paulistas. Anderson cita Wellington Paulista, Pará e Nunes como exemplos de atletas que ajudam a elevar o nível dos torneios.
“Sobre profissionais na várzea, é gratificante você ter um Wellington Paulista, um Pará, Nunes. Para nós é gratificante, porque engrandece a várzea.”
A experiência profissional, porém, não garante adaptação.
“Os ex-profissionais são sensacionais. O Pará, o Nunes, não dá para reclamar deles. Respeitamos a história deles, nos espelhamos, é bom ter no grupo, pois são vencedores.”
Ao mesmo tempo, Anderson destaca que a várzea exige características próprias.
“Eu acho muito difícil um jogador da várzea, que nunca teve base, sair da várzea e ir para o profissional, já chegar e jogar, se destacar. Hoje em dia é muito difícil, porque ele não teve aquele acompanhamento, não teve aquela base toda, não se preparou.”
A via contrária também apresenta dificuldades.
“Agora, o jogador que vem do profissional para a várzea também sente a diferença, porque tem muitos jogadores que vêm do profissional e não conseguem jogar na várzea. É difícil jogar na várzea, ainda mais aqui em São Paulo.”
Novo ‘significado’ para o futebol
Anderson pretende continuar por mais alguns anos. Aos 38, calcula que ainda jogará duas ou três temporadas antes de parar definitivamente. Depois, pretende dedicar mais tempo ao filho e à família. A decisão de encerrar a carreira profissional ainda é lembrada com uma mistura de orgulho e alívio.
“Perdi minha infância, não pude brincar, não pude fazer as coisas, mas não me arrependo porque eu consegui chegar. Joguei em time grande, joguei no Cruzeiro. Era muito difícil ficar longe da minha família, da minha mãe, dos meus irmãos. Para mim foi muito difícil, muito difícil mesmo.”
A experiência no Cruzeiro, entretanto, permanece entre as melhores lembranças.
“Jogar com esses jogadores foi gratificante, ter jogado com o Gabriel, com o Geovanni, com o Fábio, Marcelo Moreno também. Tinha o Fábio Santos também nessa época que estava com a gente, Gladstone, tinha todos esses jogadores, Maicosuel também.”
E é por ter vivido os dois mundos que Anderson consegue enxergar a diferença entre eles. No profissional, passou pela pressão, pelas concentrações, pelos empréstimos e também pelo problema de salários atrasados. Na várzea, encontrou uma torcida que acompanha o clube de perto, amigos, família e um sentimento de pertencimento que considera diferente.
No domingo, diante de mais de nove mil pessoas, teve a chance de participar do lance que deu ao Jardim Verônia o maior título de sua trajetória.
O cruzamento não entrou diretamente para a súmula como gol ou assistência (o primeiro cabeceio foi defendido e Igão marcou no rebote). Para Anderson, pouco importa.
Aos 38 anos, depois de ter passado pelo Cruzeiro e por diversos clubes profissionais do país, ele encontrou na várzea uma forma diferente de continuar fazendo aquilo que nunca deixou de gostar.
“Esse time eu amo, gosto de jogar, a comunidade me abraçou super bem, eu e minha família.”
E agora o Jardim Verônia também faz parte da história de Anderson Luís.
A notícia Do Cruzeiro à várzea: lateral decide final com cruzamento e conquista título de R$ 150 mil foi publicada primeiro no No Ataque por Vitor de Araújo


