Cruzeiro cresce no Brasileiro, mas queda de confiança contrasta com números
A Raposa venceu seis das nove partidas que disputou no returno do Brasileiro. São 18 pontos de 27 possíveis, aproveitamento de 66,67%. Em um recorte ainda maior, das últimas 10 rodadas, foram 21 pontos conquistados em 30, desempenho inferior apenas ao do Flamengo (76,67%) no período.
Os números contrastam com o sentimento deixado pelas últimas semanas. Se a fotografia do Brasileiro é positiva, o filme da temporada recente acumulou frustrações. Em pouco tempo, o Cruzeiro caiu diante do Flamengo nas oitavas de final da Libertadores e foi eliminado pelo Atlético nas quartas da Copa do Brasil.
Time ‘paga conta’ dos mata-matas
Em uma competição de 38 rodadas, a recuperação construída desde a chegada de Artur Jorge tem peso considerável. No mata-mata, entretanto, quatro partidas foram suficientes para mudar a temperatura da temporada.
Contra Flamengo e Atlético, o Cruzeiro abriu as duas eliminatórias no Mineirão com empates por 1 a 1. Depois, perdeu os jogos de volta por 2 a 1 e deixou as competições, situações que adicionam uma dose de frustração ao torcedor.
Assim, enquanto o Brasileiro ofereceu tempo para que o trabalho de Artur Jorge corrigisse parte dos problemas herdados do início de campeonato, Libertadores e Copa do Brasil cobraram respostas imediatas.
A Raposa começou a Série A sem vencer nas oito primeiras partidas sob o comando de Tite, com quatro empates e quatro derrotas. Só deixou a zona de rebaixamento na 12ª rodada, já com Artur Jorge. Agora, ocupa a sexta posição, com 45 pontos em 28 partidas.
A recuperação, portanto, existe, o que mudou foi a régua. Depois dos investimentos realizados pela SAF e da própria reação apresentada durante o Brasileiro, escapar da parte inferior da tabela deixou de ser suficiente para alimentar a percepção de sucesso. As eliminações passaram a pesar mais do que a ascensão inicialmente celebrada.
Cruzeiro passou a conviver com outro problema
Há também uma mudança perceptível na maneira como a equipe tem construído seus resultados. Desde a vitória por 3 a 1 sobre o Mirassol, em 9 de agosto, o Cruzeiro entrou em campo 11 vezes por Brasileiro, Libertadores e Copa do Brasil. Em todas as partidas marcou pelo menos um gol — e em todas sofreu pelo menos um.
São seis vitórias, dois empates e três derrotas no período, com uma curiosidade ainda maior: 16 gols marcados e exatamente 16 sofridos.
É um Cruzeiro que dificilmente deixa de ameaçar o adversário, mas que também perdeu a capacidade de controlar partidas sem ser vazado. Até mesmo nos dois empates por 1 a 1 que abriram os confrontos eliminatórios contra Flamengo e Atlético, a Raposa esteve em vantagem e permitiu a reação.
A última vez em que a equipe entrou em campo sem que as duas redes fossem balançadas foi em 5 de agosto, na vitória por 2 a 0 sobre a Chapecoense, no Mineirão.
O contraste ajuda a explicar como é possível ter uma campanha tão produtiva no Brasileiro e, ao mesmo tempo, transmitir sensação de instabilidade.
Pilares também atravessam momento diferente
Parte dessa transformação coincide com oscilações individuais de jogadores que sustentaram o Cruzeiro em outros momentos.
Kaio Jorge é o principal exemplo. Artilheiro do Campeonato Brasileiro de 2025, com 21 gols em 33 jogos, o atacante terminou aquela temporada com 26 gols e chegou à Seleção Brasileira. Em 2026, continua como principal goleador celeste, com 17 gols em 41 partidas, além de três assistências, mas perdeu a regularidade que o transformou em protagonista no ano passado.
Nos últimos cinco jogos, participou diretamente de três gols — assistência para Arroyo contra o Vitória e gols de pênalti diante de Atlético e Athletico-PR. Por outro lado, não marca com bola rolando desde 9 de agosto, contra o Mirassol. Na Libertadores, terminou sua participação sem balançar as redes em sete partidas e teve atuação discreta nos confrontos eliminatórios.
Não significa que Kaio tenha deixado de produzir. Os números mostram justamente o contrário. A questão está na distância entre produzir ao longo da temporada e decidir quando a margem para erro desaparece — diferença que se tornou especialmente visível depois dos mata-matas.
Na defesa, Fabrício Bruno vive situação semelhante sob outra perspectiva. O zagueiro é o jogador que mais permaneceu em campo pelo Cruzeiro em 2026: são 4.022 minutos, distribuídos por 46 partidas, 45 delas como titular.
A carga elevada veio acompanhada de um problema físico. Fabrício revelou conviver há cerca de nove meses com dores nas costas e reconheceu recentemente que não consegue repetir seu melhor nível.
“Passo por um momento difícil. Principalmente fisicamente. Eu venho sentindo minhas costas há praticamente nove meses. Mas eu sigo me dedicando, vou entregar para esse clube até o último dia que eu tiver aqui.”
Contra o Vitória, o defensor começou no banco e entrou somente aos 35 minutos do segundo tempo, quando Artur Jorge reforçou a área com três zagueiros. João Marcelo e Jonathan Jesus haviam iniciado a partida.
Assim, até um dos jogadores mais utilizados da temporada passou a representar a necessidade de encontrar novas soluções para a reta final.
Números sobem, ânimo desce
É nesse ponto que a temporada do Cruzeiro apresenta seu maior paradoxo. No início do Brasileiro, o problema estava na tabela. A equipe não vencia, frequentava a zona de rebaixamento e precisava reagir para impedir que o campeonato se transformasse em preocupação. Meses depois, boa parte dessa missão foi cumprida.
Agora, o Cruzeiro é sexto colocado e apresenta, nos recortes recentes da Série A, desempenho compatível com os melhores times do país. A evolução matemática é difícil de contestar.
O estado anímico percorreu o caminho inverso.
À medida que o time cresceu no Brasileiro, aumentaram também as expectativas sobre aquilo que poderia entregar nas copas. Quando Flamengo e Atlético interromperam os dois caminhos, em sequência, a percepção da temporada sofreu uma queda muito mais brusca do que a registrada pela equipe dentro da Série A.
No Brasileiro, os tropeços de abril e maio podem ser compensados por vitórias em agosto, setembro e outubro. Nos mata-matas, não. Para o Cruzeiro, quatro jogos contra Flamengo e Atlético tiveram força suficiente para reduzir o impacto de uma recuperação construída ao longo de meses.
Agora, sem Libertadores ou Copa do Brasil pela frente, não há mais disputa entre diferentes versões da temporada. Restam dez rodadas do Brasileiro e um objetivo concreto: transformar a recuperação estatística em vaga direta na fase de grupos da Libertadores de 2027.
O que resta para 2026
O cenário acompanhará o Cruzeiro até dezembro. O clube fez investimentos elevados para a temporada, reforçou o elenco e entrou em 2026 com expectativa de disputar os principais títulos. Gerson foi contratado do Zenit por 27 milhões de euros, com possibilidade de o negócio chegar a 30 milhões de euros por meio de bônus.
Gabriel Pec custou R$ 63 milhões antes de sofrer uma fratura na perna em sua segunda partida, enquanto Gabriel Rojas foi adquirido do Racing por R$ 31 milhões.
As duas copas, porém, já ficaram pelo caminho. Resta o Brasileiro, justamente a competição na qual os números recentes indicam que o Cruzeiro encontrou sua maior regularidade.
Na sexta posição, com 45 pontos, a Raposa está a três do Fluminense, quarto colocado, com 48, e a um do Bahia, quinto com 46. A próxima partida será contra o São Paulo, em 7 de outubro, às 21h30, no Mineirão.
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